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sábado, 16 de abril de 2011

Doenças causadas pela poluição das águas

A poluição da água pode se dar através de 4 fatores principais: (1) os agrotóxicos utilizados nas lavouras comerciais (2) os metais pesados provenientes de dejetos industriais, como o chumbo e o mercúrio; (3) agentes infecciosos como vírus, bactérias e protozoários e (4) material radioativo.

As doenças causadas por (1) são as doenças de pele, como dermatites, do aparelho digestivo e o câncer; por (2) são as intoxicações por metais pesados, como o saturnismo, causado pelo excesso de chumbo na água. Em humanos, essa intoxicação pode levar a quadro clínico evidente ou a alterações bioquímicas mais sutis. Os sintomas mais comuns são dores abdominais severas, úlceras orais, constipação, parestesias de mãos e pés e a sensação de gosto metálico. O exame físico pode demonstrar a presença de uma linha de depósito de chumbo na gengiva e neuropatia periférica. Outras alterações incluem anemia (por porfiria secundária e inibição da medula óssea), disfunção renal, hepatite e encefalopatia (com alterações de comportamento, redução no QI).

Já o envenenamento por mercúrio, também chamado mercurialismo ou hidrargirismo, causa lesões ao sistema nervoso central, sistema endócrino (glândulas), rins e outros órgãos, e afeta de forma adversa a boca, as gengivas e os dentes. A exposição por longos períodos de tempo ou a exposição aguda ao vapor de mercúrio pode resultar em dano ao cérebro e morte. O mercúrio e seus compostos são particularmente tóxicos aos fetos e às crianças. Mulheres que estiveram expostas ao mercúrio durante a gravidez deram à luz crianças com sérios defeitos de nascimento (e.g., doença de Minamata). O envenenamento por mercúrio é muito comum em áreas de garimpo, pois os garimpeiros utilizam o mercúrio para deparar o ouro da terra, e o mercúrio vai contaminar as águas.

As principais doenças causadas por (3) são a leptospirose, quando a água tem contato com a urina de ratos; as hepatites, principalmente do tipo A; a febre tifóide; as diarréias infecciosas; cólera e esquistossomose.

As doenças causadas por (4) ocorrem quando a água potável é contaminada por elementos radioativos, como ocorreu no recente acidente nuclear em Fukushima, no Japão; a principal delas é o câncer da tireóide, causado pelo isótopo radioativo do iodo, que se acumula nessa glândula; o césio 137 que se acumula nos músculos, podendo também causar o câncer; e o estrôncio 90, que se acumula nos ossos causando o câncer ósseo e as leucemias..

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Comparação entre os acidentes nucleares de Fukushima e Chernobyl

Um artigo escrito no dia 01/04/2011 por John Vidal, no jornal britânico “The Guardian”, do qual ele é editor para a área de meio ambiente, revela fatos e dados estarrecedores sobre o acidente nuclear ocorrido na Usina de Chernobyl, Ucrânia, antiga União Soviética, em 1986.

Nesse artigo, Vidal descreve conseqüências desse acidente que não foram divulgados para o público mundial. Ao comparar essa tragédia com o acidente ora em curso na Usina de Fukushima, no Japão, ele afirma que as autoridades japonesas, como fizeram as soviéticas em 1986, estão nos informando muito pouco sobre o que realmente aconteceu nessa catástrofe. Para reafirmar seus argumentos, Vidal cita as palavras de Alexey Yablokov, membro da Academia Russa de Ciências, e conselheiro do presidente Gorbatchev à época de Chernobyl: “quando você ouvir 'não há perigo imediato' [de radiação nuclear] então é hora de correr para o mais longe e o mais rápido que você puder”.

Em seu artigo, John Vidal narra o que observou numa visita que ele e sua equipe de reportagem fizeram, há cinco anos, a áreas ainda altamente contaminadas da Ucrânia e da fronteira da Bielorrússia, onde a maior parte da radioatividade de Chernobyl se concentrou. Eles visitaram vários hospitais da região, tendo constatado um quadro alarmante de pessoas ainda seriamente afetadas pelos efeitos da radiação, 20 anos após a ocorrência da catástrofe nuclear.

Dentre os problemas constatados por Vidal e seus colegas, eles relatam casos de bebês deformados e com mutações genéticas; crianças doentes; adolescentes com crescimento anormal e corpo deformado; fetos sem pernas ou dedos e pessoas dizendo que todos os membros de suas famílias estavam doentes. Uma médica emocionada disse a eles que, em alguns lugares, uma em três gestações tem má-formação e que ela estava sobrecarregada de pessoas com desordens nos sistemas imunológicos e endócrinos. Outros relatos davam conta de que uma quantidade significativa de radiação estava presente na cadeia alimentar mesmo de áreas relativamente distantes de Chernobyl, fato responsável pela contaminação do leite materno por isótopos radioativos de césio e estrôncio, sendo relativamente comuns os casos de câncer de tireóide e de pessoas que apresentam taxas aceleradas de envelhecimento.

Vidal colheu o depoimento pessoal de um dos homens que ajudou a limpar o que restou da Usina de Chernobyl , durante o qual este afirmou que praticamente todos os seus colegas morreram ou desenvolveram algum câncer, de um tipo ou outro, mas que nunca ninguém entrou em contato com ele para mostrar as evidências. De fato, a Academia Russa de Ciências Médicas declarou em 2006 que 212 mil pessoas haviam morrido em consequência do acidente nuclear de Chernobyl.

O jornalista termina seu artigo aventando a hipótese de que o acidente nuclear de Fukushima pode ser pior que o de Chernobyl, afirmando que “ainda não sabemos o resultado final, mas ouvir de especialistas que a radioatividade não é nada sério, ou que esse acidente prova que precisamos de energia nuclear, não é nada menos de trágico”.

Traduzido e resumido por mim em 03/04/2011. A reportagem original (em inglês) está disponível no link http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/apr/01/fukushima-chernobyl-risks-radiation.

terça-feira, 29 de março de 2011

Efeitos do acidente nuclear no Japão e reflexões para o Brasil

Um acidente nuclear libera radioatividade sob várias formas, sendo que as principais são: (1) radiação propriamente dita, sob a forma de ondas eletromagnéticas como os raios X, gama, etc. Essas são mortíferas, mas têm alcance mais limitado. (2) partículas subatômicas como as denominadas partículas alfa, que são o núcleo do elemento hélio e (3) isótopos radioativos de elementos químicos diversos, que são liberados para o meio ambiente, sob a forma de "poeira radioativa". Dentre os isótopos radioativos liberados, podemos citar o iodo 131, o estrôncio 90 e o césio 137.

As partículas subatômicas e os isótopos radioativos são muito perigosos, pois tanto podem se infiltrar no solo, carreados pela água, contaminando o mesmo e os lençóis de água subterrâneos, quanto podem ser levados pelos ventos para locais distantes da usina, sendo trazidos novamente ao solo pelas chuvas, contaminando nossas fontes de água e de alimento mesmo em locais distantes daquele do acidente, dependendo da intensidade do mesmo e da direção dos ventos. Desse modo, um acidente nuclear pode causar a contaminação de toda a cadeia alimentar dos ecossistemas que forem contaminados pela radiação.

Felizmente, o Brasil está no lado oposto do paneta em relação ao Japão e até o momento, recebeu apenas restos dessas partículas, incapazes de prejudicar nossa saúde. Os efeitos da radiação sobre o corpo humano, provenientes de (1), (2) ou (3), dependerão da intensidade da mesma e do tempo de exposição. Uma exposição direta causa queimaduras de 3º grau e morte relativamente rápida. Já nas contaminações menos intensas as pessoas podem não apresentar sintomas imediatos, mas como a radiação altera o DNA de nossas células, tais pessoas podem desenvolver uma série de doenças daí decorrentes, sendo o câncer a mais comum (principalmente de tireóide, leucemias, etc). Infelizmente, uma vez que o DNA foi alterado, pouco pode ser feito para evitar essas doenças.

Um outro efeito prejudicial ao homem (e aos demais seres vivos, tanto vegetais quanto animais) é o acúmulo dos isótopos radioativos em tecidos específicos do corpo; por exemplo, o césio 137 se acumula nos músculos, o iodo 131 tem predileção pela glândula tireóide e o estrôncio 90 se deposita nos ossos. Esse fato pode originar doenças como o já citado câncer, em sua várias formas.

Quanto à conveniência ou não do emprego da energia nuclear no Brasil, os leitores podem se reportar à palestra "Catástrofe natural do Japão, reflexões e ações no Brasil", proferida pelo assessor da presidência da Eletrobrás Eletronuclear, Leonam dos Santos Guimarães, no plenário do Confea em 24 de março de 2011. Para ele, ouvir a expressão “energia nuclear” já causa medo em muitas pessoas. Entretanto, segundo ele, essa é uma das formas mais seguras de provimento de energia elétrica.

Sérgio Oreiro