sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Encontro com Carlos Drummond de Andrade

Lembro-me muito bem de quando li este soneto do Drummond pela primeira vez. Ele constava de um livro de português da segunda série do antigo 2º grau, livro esse do qual não me recordo de forma alguma. Foi-se o livro, ficou o soneto na memória.

Assim que a professora leu o soneto em classe e depois passou exercícios para que nós, os alunos, o interpretássemos, passei a pensar em meu pai, que na época – o ano era 1978 – ainda trabalhava e gozava de plena saúde. Obviamente, meu pai não era arquiteto nem fazendeiro, mas tinha um comportamento espartano em relação ao seu trabalho e era um homem extremamente honesto. Nesse caso, ele tinha a disciplina necessária para ser um bom fazendeiro, se quisesse exercer esta profissão.

Este soneto ficou gravado em minha memória e eu era capaz de recitá-lo de cor, por anos a fio, até o dia de hoje, em que me deparei com o mesmo, por acaso, folheando uma coletânea de poemas do Drummond. Então, resolvi publicar o poema no Ciências e Poemas, em memória de meu saudoso pai, que espero estar numa boa esfera espiritual, se é que há mesmo vida após a morte. Mas não quero entrar em searas esotéricas agora – quero apenas apreciar a beleza dos versos de um dos maiores poetas de nosso idioma.

Encontro

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face ruga a ruga.

Está morto, que importa? Inda madruga
e seu rosto, nem triste nem risonho,
é o rosto antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.

Ó meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas

por um rio que corre o tempo inteiro
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.

(Carlos Drummond de Andrade. Reunião. 10 livros de poesia. Rio: José Olympio, 1971. p. 193)

Sérgio

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